Entrevista com Mikel Peña

30/04/2025

"Com Welfair® O bem-estar animal é melhorado, mas também a produtividade, a qualidade e a sustentabilidade do sistema”

Com mais de 20 anos de experiência no setor agroalimentar, Mikel Peña, veterinário e Auditor Líder da Welfair®, percorreu um caminho que o levou da prática como clínico veterinário à qualificação como auditor especializado em bem-estar animal. Hoje, ele colabora internacionalmente, aplicando padrões de avaliação de bem-estar animal e focando na observação animal e em diferentes práticas de manejo pecuário. De sua perspectiva técnica e interdisciplinar, ele discute a avaliação do bem-estar animal, as especificidades da América Latina e as oportunidades — bem como os desafios — da aplicação de um modelo que exige pausa e observação.

Da clínica veterinária ao bem-estar animal

Seus primeiros passos na profissão foram ligados ao trabalho clínico nos setores de pecuária e pequenos animais. Ele também trabalhou como inspetor veterinário em matadouros na Catalunha. Posteriormente, concluiu um mestrado em segurança alimentar, dedicando-se por mais de dez anos à qualidade e segurança na indústria alimentícia.

“Finalmente, em 2019 iniciei minha formação em padrões e protocolos de avaliação Welfair®. Hoje, quase 100% do meu trabalho se concentra em auditorias em fazendas, matadouros e unidades de processamento”, explica. Essa experiência lhe permitiu avaliar em primeira mão o importante trabalho realizado por empresas em todas as etapas da cadeia agroalimentar.

Um olhar da América Latina 

Durante seus primeiros anos como auditor, seu trabalho se concentrou na Espanha e em Portugal. Mas, desde 2022, sua área de atuação se expandiu para a América Latina, continente onde, segundo Mikel, "a grande riqueza geográfica e cultural de seus países também se reflete na diversidade dos sistemas de gestão pecuária". Essa diversidade, explica ele, existe não apenas entre os países, mas também entre as diferentes regiões dentro de cada um: "Desde grandes laticínios de alta tecnologia no México até pequenos produtores rurais na Costa Rica e no Peru, todos compartilham uma coisa em comum: o comprometimento de seus técnicos e produtores e uma visão do bem-estar animal como pilar fundamental para a sustentabilidade e a competitividade de seus sistemas pecuários e das indústrias agroalimentares associadas", esclarece.

Além disso, ele destaca uma diferença fundamental em relação ao contexto europeu: "Enquanto Espanha e Portugal têm trabalhado arduamente em certificações específicas, na América Latina eles estão integrando o bem-estar animal a uma visão muito ampla e sustentável de toda a cadeia agroalimentar. É uma abordagem global que, na minha opinião, é muito enriquecedora", concorda.

Da teoria à prática: avaliando o ambiente e observando o animal

Em suas auditorias, Mikel identifica duas abordagens que, longe de serem opostas, considera complementares. A primeira é a que analisa os riscos ambientais. "Por exemplo, se o caminho para um pasto estiver em más condições, pode comprometer o bem-estar do animal, causando claudicação. Ou se as temperaturas forem extremas, como ocorre em algumas regiões do México, isso também afeta diretamente o seu bem-estar", explica o auditor.

A segunda abordagem, e aquela que Mikel particularmente valoriza, é aquela baseada na observação direta do animal: “O protocolo Welfair® baseia-se nisso: parar, observar e avaliar. Observar o comportamento do animal nos diz se o ambiente e o manejo estão realmente funcionando. Não se trata apenas de revisar a documentação; trata-se de observar o animal, entender o que está acontecendo e, consequentemente, identificar oportunidades de melhoria que os técnicos muitas vezes ignoram.

Ela também enfatiza que um dos maiores aprendizados de sua experiência profissional foi, justamente, compartilhar essas perspectivas com outros especialistas do setor. Compartilhar diferentes abordagens, observações e práticas enriqueceu seu trabalho e lhe permitiu abordar o bem-estar animal de uma perspectiva mais abrangente e prática.

Barreiras e benefícios

Ao implementar o protocolo Welfair®, Mikel afirma que muitas empresas encontram barreiras iniciais, principalmente devido à falta de conhecimento. "Elas estão acostumadas a auditorias documentais, onde procedimentos escritos são avaliados. Mas aqui, o que está sendo auditado é o comportamento do animal, e isso gera algumas dúvidas ou resistências no início", explica.

No entanto, ele afirma que uma boa explicação técnica pode transformar percepções. "Quando a abordagem é compreendida e como os indicadores são aplicados é demonstrado, as empresas valorizam. Por isso é tão importante explicá-la bem, não apenas aos gestores, mas também aos agricultores, operadores e técnicos da planta."

Sobre os benefícios, Mikel é enfático: “O bem-estar animal é um pilar fundamental que impacta positivamente a produtividade das fazendas, mas também a qualidade e a segurança dos matadouros. E isso é frequentemente esquecido. Não são apenas os animais que se beneficiam, mas toda a cadeia de suprimentos”, conclui.

Histórias que marcam

Ao longo de suas auditorias, Mikel testemunhou como certificações como Welfair® pode gerar um impacto tangível no bem-estar animal e nos resultados produtivos das fazendas de gado. Um dos casos que ele mais lembra é o de uma empresa que decidiu se certificar com o selo Welfair® para suas fazendas leiteiras, compostas por pequenos produtores com rebanhos de cerca de 30 vacas cada.

“Durante avaliações internas, constatou-se que a disponibilidade de água era limitada em diversas fazendas”, explica ele. Com base nessa constatação, melhorias simples, porém eficazes, foram implementadas: a localização foi otimizada e o número de bebedouros foi aumentado. Os resultados foram rapidamente aparentes. Os criadores observaram uma diminuição nos comportamentos competitivos agonísticos pelo acesso à água, o que contribuiu para melhorar o bem-estar geral dos animais e a estabilidade do grupo.

Além disso, relataram um aumento significativo na produção de leite. "Um dos produtores chegou a estimar que a melhoria gerou uma renda adicional de cerca de US$ 20.000 por ano", conclui Mikel, reafirmando que o bem-estar animal não é apenas uma questão ética, mas também uma decisão estratégica com benefícios concretos para as fazendas.

A importância de se manter atualizado

Questionado sobre como as auditorias se alinham aos avanços científicos, Mikel explica que os auditores recebem treinamento contínuo com base em protocolos e padrões definidos e são avaliados periodicamente para manter sua competência. Ele também enfatiza a importância da comunicação entre todas as partes interessadas: "Coletamos muitos dados de campo que podem ser úteis para aprimorar os indicadores existentes. Por isso, o diálogo entre o setor, os técnicos e os comitês científicos é essencial", enfatiza.

Soma-se a isso a necessidade de se manter atualizado sobre as mudanças legislativas, especialmente em países da América Latina, onde ele afirma que a legislação sobre bem-estar animal está em constante evolução. Para Mikel, participar de conferências, ler publicações especializadas e participar de fóruns do setor não apenas mantém os profissionais atualizados, mas também permite que adaptem a certificação a contextos específicos e em constante evolução.

Compromisso com toda a cadeia

Com um histórico que abrange diversas etapas do sistema agroalimentar, Mikel Peña acredita que o bem-estar animal não deve ser entendido como uma necessidade isolada, mas sim como um compromisso coletivo que envolve toda a cadeia: das fazendas de gado aos transportadores, matadouros, unidades de processamento, distribuidores e consumidores. "Quando os protocolos são aplicados corretamente, os resultados são evidentes: o bem-estar animal melhora, assim como a produtividade, a qualidade dos produtos e a sustentabilidade do sistema. É nessa direção que devemos continuar avançando."

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