“Desinformação no setor agroalimentar: um desafio para a comunicação científica”
No debate sobre alimentação, ciência e sustentabilidade, a desinformação desempenha um papel decisivo na percepção do consumidor. JM Mulet, professor de Biotecnologia na Universidade Politécnica de Valência e autor de vários livros, como "We Eat What We Are" (Comemos o que Somos), oferece uma perspectiva crítica sobre os desafios de comunicação em torno da biotecnologia e do bem-estar animal, bem como a importância de informações precisas para a tomada de decisões na indústria agroalimentar.
Da pesquisa à comunicação: uma carreira de impacto
Há mais de vinte anos, J. M. Mulet investiga os mecanismos que permitem às plantas tolerar condições ambientais extremas, como seca e salinidade. Seu trabalho tem sido associado ao desenvolvimento de culturas mais resilientes por meio de técnicas de modificação genética e, mais recentemente, à edição genética com ferramentas como o CRISPR, que permite uma modificação genética mais precisa.
"No início, a biotecnologia vegetal era uma área muito controversa, então tive que aprender a me comunicar com rigor científico. Minha experiência na disseminação de informações sobre OGMs me ajudou nos últimos anos a combater a desinformação no setor pecuário", explica Mulet.
Seu trabalho transcendeu a pesquisa, atuando em comitês científicos e colaborando com a indústria da carne na elaboração de estratégias de comunicação baseadas em evidências. "As mesmas falácias e farsas que cercavam os OGMs vinte anos atrás agora estão sendo aplicadas à pecuária", alerta.
O papel da comunicação na percepção do bem-estar animal
O bem-estar animal é um tema de crescente interesse para os consumidores, mas também uma fonte de desinformação. "Existe uma narrativa predominante que associa a pecuária a maus-tratos a animais. No entanto, os fatos e a legislação vigente são ignorados, e temos regulamentações de bem-estar animal muito rígidas", afirma o professor.
Para ele, o problema do consumidor é que atualmente existem muitas fontes de informação, mas poucas são confiáveis. O desafio do setor, afirma, é informar o público diretamente. "Não podemos convencer aqueles com interesses financeiros com desinformação. A comunicação deve se concentrar no consumidor, explicando com dados e evidências que o bem-estar animal é uma prioridade na produção agroalimentar."
O professor também afirma que a pecuária enfrenta uma crise de comunicação. "O setor muitas vezes reage tardiamente e de forma fragmentada às campanhas de desinformação. Não basta se defender quando um problema já existe; é preciso antecipá-lo com uma comunicação proativa, coordenada e baseada em ciência", enfatiza Mulet.
Entre os principais desafios do setor nos próximos anos estão a necessidade de adaptação a novas regulamentações, o surgimento de alternativas como a carne sintética e a importância de educar os consumidores sobre a realidade da produção animal. "Se não nos comunicarmos bem, corremos o risco de repetir a história dos OGMs: regulamentações que limitam a produção local e importam produtos de países sem controles rigorosos. A solução está na ciência, na transparência e na comunicação eficaz", conclui.
Ciência e certificação: a chave para combater as fake news
Mulet enfatiza a importância de certificações respaldadas por critérios científicos. "A certificação de bem-estar animal não deve se basear em percepções ou no que parece bom, mas em estudos etológicos e parâmetros objetivos. Não se trata de humanizar os animais, mas sim de garantir condições ideais para suas espécies e seu ambiente."
Da mesma forma, a pesquisa e a disseminação científica desempenham um papel fundamental no combate à desinformação. "A ciência não entende ideologias ou vieses. Nosso trabalho como pesquisadores é fornecer dados que permitam a tomada de decisões com base em fatos, não em emoções."
Conselhos para futuros comunicadores científicos
Para cientistas que desejam comunicar melhor seu trabalho, Mulet recomenda superar o medo da opinião pública e aproveitar as oportunidades de divulgação. "Ninguém explicará seu trabalho melhor do que você mesmo. Você precisa encontrar plataformas para compartilhar seu conhecimento: mídias sociais, palestras, colaborações com a mídia. O segredo é ser claro, conciso e sempre baseado em dados verificáveis. Você está fazendo as coisas corretamente? Diga-nos, é só isso", conclui.
