Entrevista com Ina Beltrán de Heredia

09/01/2025

"Os primeiros interessados ​​no bem-estar dos animais são os agricultores."

Ina Beltrán de Heredia, médica veterinária e pesquisadora do Departamento de Produção Animal do Instituto Basco de Pesquisa e Desenvolvimento Agrícola (NEIKER), dedicou grande parte de sua carreira ao estudo do bem-estar animal em pequenos ruminantes. Nesta entrevista, exploramos sua trajetória profissional e o impacto da certificação. Welfair® no setor agroalimentar e os desafios e oportunidades de avançar em direção a uma pecuária mais sustentável e comprometida com o bem-estar animal.

O equilíbrio entre reprodução e bem-estar animal

Ina Beltrán de Heredia iniciou sua carreira de pesquisadora após concluir seus estudos em veterinária, e sua tese focou em biotecnologia reprodutiva em pequenos ruminantes. Esse foco marcou o início de sua especialização em produção animal, área que se expandiria com sua participação em um projeto europeu em 2010, onde trabalhou na identificação de indicadores de bem-estar e dor animal em diferentes espécies.

"Foi aí que entrei no mundo do bem-estar animal", explica Ina. "Especificamente, no âmbito do projeto Indicadores de Bem-Estar Animal (AWIN), que buscava desenvolver indicadores confiáveis ​​para avaliar o bem-estar de diversas espécies de animais domésticos, incluindo ovinos e caprinos. Desde então, conciliei meu trabalho em criação e produção animal com esta área tão importante: o bem-estar."

A nível europeu, o termo “pequenos ruminantes” abrange principalmente ovinos e caprinos. “No que diz respeito a Welfair®, começamos a trabalhar no bem-estar animal para ovinos", comenta. No entanto, ele ressalta que, posteriormente, também se concentraram no desenvolvimento de protocolos para caprinos: "Desenvolvemos, em ordem cronológica, o protocolo para cordeiros de engorda, ovinos e também um pequeno anexo a esse protocolo para cordeiros lactentes, além do protocolo para caprinos, que está em estágio avançado de desenvolvimento." Por fim, ele acrescenta que estão aprimorando os detalhes em colaboração com o setor agroalimentar para garantir que esses protocolos reflitam a realidade da produção.

O impacto da certificação Welfair® 

Para Ina, o desenvolvimento dos protocolos marcou um ponto de virada para as fazendas que operam essas espécies. "A certificação nos permitiu identificar tanto os pontos fortes quanto as áreas de melhoria no sistema de produção. Uma vez identificadas as fraquezas, resta apenas melhorar", reflete.

O impacto não se limita à melhoria das práticas pecuárias. Ina enfatiza que o selo Welfair® contribui significativamente para a confiança do consumidor. Do ponto de vista do bem-estar animal, ele afirma que se trata de um status muito complexo, pois abrange diferentes perspectivas: a do produtor, a do veterinário e a do consumidor. Em sua experiência, os consumidores geralmente interpretam o bem-estar como uma adaptação à vida natural dos animais: "No caso do setor ovino, que é predominantemente de produção extensiva ou semiextensiva, os consumidores tendem a valorizar esses sistemas positivamente, pois consideram que os animais estão no ambiente externo, vivendo uma vida natural."

No entanto, ele reconhece que em sistemas mais intensivos, como a engorda de cordeiros ou a produção intensiva de ovinos, pode haver maior questionamento por parte dos consumidores. "No entanto, ter uma avaliação realizada por um auditor externo, que resulta em um selo de aprovação do bem-estar animal, sempre gera confiança. Esse selo indica que os padrões de bem-estar foram superados, o que é um ponto positivo tanto para consumidores quanto para produtores", conclui.

Além disso, destaca que este selo não impacta apenas o mercado local, mas também os mercados internacionais, onde os padrões de qualidade e bem-estar são cada vez mais rigorosos, “tendo certificações reconhecidas como Welfair® abre portas para novos clientes e parceiros de negócios.

Benefícios concretos para agricultores e consumidores 

Os benefícios da certificação não se limitam ao bem-estar animal. Segundo Ina, essas melhorias também impactam a qualidade do produto e a lucratividade da fazenda. "Em confinamentos, ajustar a densidade animal ou melhorar as condições sanitárias leva a maiores taxas de crescimento e competitividade. Isso é um benefício para os produtores e, claro, para os animais."

No caso das ovelhas leiteiras, a situação é semelhante. "Quando controles específicos são aplicados, como o monitoramento da saúde das ovelhas, a qualidade do leite melhora significativamente. Isso não só aumenta o valor de mercado do produto, como também contribui para o fornecimento de alimentos de alta qualidade, beneficiando tanto o produtor quanto o consumidor", explica.

Por fim, a pesquisadora ressalta que essas melhorias nem sempre exigem grandes investimentos. "Muitas das mudanças são acessíveis e lógicas. Por exemplo, otimizar práticas de gestão pode fazer uma grande diferença sem incorrer em altos custos", afirma.

Os desafios da mudança no setor  

A implementação desses protocolos não tem sido isenta de desafios. Ina reconhece que, a princípio, alguns produtores demonstram alguma resistência. "É normal. Quando alguém de fora aponta fragilidades, pode ser desconfortável. Mas, uma vez que os produtores adotam as melhorias, os resultados são evidentes. A maioria entende que essas mudanças não beneficiam apenas os animais, mas também a sustentabilidade e a viabilidade de suas fazendas", garante a pesquisadora.

O futuro do bem-estar animal: adaptabilidade e comprometimento dos agricultores

Ina tem uma visão clara para o futuro do bem-estar animal: "Eu adoraria que todas as avaliações de bem-estar produzissem excelentes resultados em um futuro não muito distante", embora reconheça que atingir esse objetivo é um processo gradual. "A realidade coloca você no seu devido lugar, e isso é alcançado aos poucos", comenta. No entanto, ela espera que esse processo evolutivo seja mais rápido e ágil para que melhorias no bem-estar animal possam ser implementadas mais rapidamente.

Por fim, a pesquisadora conclui ressaltando que os protocolos Welfair® demonstraram sua capacidade de adaptação ao longo do tempo, elevando o padrão para promover a melhoria contínua nas práticas pecuárias. Além disso, "o bem-estar animal é fundamental não apenas por seu impacto na viabilidade econômica dos pecuaristas, mas também por razões éticas. Eles são os primeiros interessados ​​no bem-estar dos animais."

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