Entrevista com Harry Blokhuis

20/02/2025

“A qualidade do bem-estar ajudou a mudar o foco da avaliação para um sistema de medidas baseadas em animais.”

Harry Blokhuis, professor e consultor sênior, dedicou sua carreira à pesquisa em bem-estar animal, liderando importantes projetos internacionais como o Welfare Quality e dirigindo o Centro de Referência da União Europeia para o Bem-Estar Animal (EURCAW) para Ruminantes e Equinos. Nesta entrevista, ele compartilha sua carreira, os avanços na avaliação do bem-estar animal e as tendências globais que estão moldando o futuro do setor.

Da etologia à pesquisa aplicada

O interesse de Blokhuis pelo comportamento animal surgiu após a leitura dos livros do holandês Nico Tinbergen, ganhador do Prêmio Nobel. "Fiquei fascinado por seus estudos e seu método de 'observar e se maravilhar'. Ele mostrou como a observação e o registro precisos do comportamento ("observar"), aliados a questionamentos imaginativos sobre sua função, causas e desenvolvimento ("admirar-se"), levaram a hipóteses interessantes que poderiam ser testadas em um ambiente natural ou em laboratório", explica. Durante seus estudos na Universidade de Wageningen, na Holanda, ele descobriu a importância da etologia aplicada para a melhoria do bem-estar animal e, influenciado por professores como Jos Metz e Piet Wiepkema, iniciou sua carreira científica nessa área.

Ele rapidamente percebeu que a chave para melhorar o bem-estar dos animais de produção era a colaboração internacional. "A UE proporcionou oportunidades excepcionais para o desenvolvimento de projetos multidisciplinares com forte envolvimento da indústria", observa. Durante 25 anos, ele coordenou dez projetos europeus, incluindo o Welfare Quality, uma iniciativa que o professor descreve como "o maior esforço internacional em bem-estar animal até hoje".

Qualidade do bem-estar: um ponto de virada na avaliação do bem-estar animal

Uma das maiores conquistas da Welfare Quality foi a criação de uma estrutura comum para avaliação do bem-estar animal, acordada por 44 parceiros da Europa e da América Latina. "O projeto ajudou a mudar o foco da avaliação de um sistema baseado em 'medidas de entrada' (relacionadas a instalações e manejo) para 'medidas baseadas em animais'", enfatiza Harry. Essa mudança foi fundamental para a elaboração de protocolos mais precisos e relevantes para a indústria e os órgãos reguladores.

Coordenar a cooperação europeia em matéria de bem-estar animal

Blokhuis atualmente lidera o EURCAW Ruminantes e Equinos, um centro que presta assessoria científica e técnica às autoridades competentes dos Estados-Membros da UE. Seu principal objetivo é auxiliá-las no controle oficial dos requisitos de bem-estar de ruminantes e equinos estabelecidos na legislação da UE. "Nosso trabalho facilita o acesso a informações científicas atualizadas e ferramentas de treinamento para inspetores e órgãos de controle", explica.

O centro é um consórcio internacional que reúne instituições da Suécia, França, Áustria, Itália, Grécia e Irlanda. "A colaboração com diferentes países nos permite integrar conhecimento de diferentes ambientes, expandindo a experiência disponível e aprimorando a base científica do centro. A adoção de uma abordagem internacional garante que diferentes circunstâncias e práticas sejam levadas em consideração, o que facilita a aceitação dos resultados", enfatiza.

Tendências globais e o futuro do bem-estar animal

Blokhuis destaca que, ao longo de sua carreira, uma das mudanças mais importantes que detectou foi a crescente aceitação do bem-estar animal como um aspecto fundamental na produção pecuária: "Essa aceitação veio acompanhada de uma maior demanda social e de inúmeras iniciativas legislativas e do setor privado para melhorar o bem-estar animal", afirma. Ele também destaca que empresas que lidam diretamente com o consumidor, como supermercados e redes de restaurantes, estão integrando o bem-estar animal como um critério de qualidade e exigindo padrões mais elevados de seus fornecedores, com base em sistemas de certificação e auditorias externas, como Welfair®.

Para os produtores, a adaptação a essas demandas envolve a implementação de melhorias com base científica e a colaboração estreita com os varejistas. "A chave é colaborar para implementar mudanças e compartilhar os custos e benefícios dessas melhorias", observa. No entanto, ele também enfatiza a importância da pesquisa nesse processo. "A ciência deve continuar a fornecer dados sólidos para embasar melhorias no bem-estar animal", explica.

Outra mudança relevante destacada pelo professor é a maior base científica para as discussões sobre bem-estar animal: "Hoje, tanto a indústria quanto as ONGs se baseiam mais em resultados científicos para argumentar seus posicionamentos", afirma.

Por fim, Blokhuis transmite uma mensagem crucial: a interação entre o bem-estar animal e outras questões globais, como as mudanças climáticas, será um desafio. Nesse sentido, ele enfatiza a necessidade de integrar o bem-estar animal a outras questões globais. "A pesquisa deve adotar uma abordagem mais holística, e a ciência, sem dúvida, continuará sendo a base para a mudança."

Resumo de privacidade

Este site utiliza cookies para melhorar a sua experiência enquanto navega. Destes cookies, os cookies categorizados como necessários são armazenados no seu navegador, pois são essenciais para o funcionamento das funcionalidades básicas do site.