Entrevista com George Stilwell

02/06/2025

“O objetivo central nunca deve ser perdido de vista: o verdadeiro bem-estar dos animais.”

George Stilwell É veterinário e professor associado da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Lisboa (FMV-ULisboa). Coordena também o Laboratório de Investigação em Comportamento e Bem-Estar Animal da mesma universidade e é uma figura-chave na promoção do bem-estar dos animais de produção, combinando ensino, investigação aplicada e trabalho de campo. Nesta entrevista, fala sobre a sua carreira, as mudanças no bem-estar animal em Portugal e o papel da certificação. Welfair® e os desafios do futuro.


Carreira da prática veterinária à pesquisa

“Comecei a minha carreira profissional como veterinário clínico, trabalhando com animais de criação”, explica Stilwell. Durante 17 anos, atuou em duas regiões do centro e norte de Portugal antes de ingressar na FMV-ULisboa em 2001, onde atualmente leciona “Clínica de Animais de Criação” e “Bioética”.

Sua pesquisa se concentrou na saúde e no bem-estar de ruminantes, bem como no ensino de medicina baseada em evidências. Sua tese de doutorado abordou a dor em bovinos, um tema que continua sendo um de seus principais focos de pesquisa.

Ele coordenou ou participou em numerosos projectos europeus e nacionais sobre bem-estar de ruminantes, entre os quais se destaca o seu papel em AWIN – Indicadores de Bem-Estar Animal, liderando estudos sobre cabras leiteiras e publicando o protocolo de avaliação de bem-estar para esta espécie. Da mesma forma, "participei de vários grupos de trabalho da Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) sobre bem-estar de vacas e bezerros leiteiros, incluindo os grupos responsáveis ​​pelos Pareceres Científicos que fundamentam a revisão da legislação sobre bem-estar de bezerros e vacas leiteiras", destaca.

O estado do bem-estar animal em Portugal

Nas décadas de 80 e 90, Stilwell já conversava sobre bem-estar animal com os produtores, "quando pouquíssimas pessoas sequer pensavam nisso". Na época, muitos viam o bem-estar como uma ameaça à viabilidade econômica das fazendas. "Nosso dever como veterinários era mostrar que o bem-estar era a melhor maneira de garantir o sucesso de suas fazendas", diz Stillwell.

Um dos marcos foi a concepção de um protocolo de avaliação para o Programa Leite de Vacas Felizes nos Açores, uma das primeiras abordagens estruturadas no país. "No início, muitos acharam que era uma piada, mas rapidamente ficou claro que a avaliação e a certificação do bem-estar animal eram o caminho a seguir", explica Stilwell. Graças a esse trabalho e ao aumento da conscientização e da demanda dos consumidores, ele explica que a situação em Portugal melhorou substancialmente. Hoje, as boas práticas são mais comuns e a maioria dos agricultores está convencida de que precisa promover o bem-estar animal para sobreviver como produtores.

No entanto, Stilwell é claro: "Estamos caminhando na direção certa, embora ainda não tenhamos atingido o cenário ideal", observa Stilwell, que enfatiza que ainda existem algumas deficiências que precisam ser melhoradas.

A introdução de protocolos foi fundamental. "Eles permitiram uma avaliação mais sistemática e científica, além de incentivar a participação do setor", afirma. Nesse sentido, Welfair® foi pioneira em Portugall, ao certificar o bem-estar de diferentes espécies e em diferentes estágios da cadeia alimentar. Ao se tornar um selo "reconhecido e confiável", promoveu a "competição saudável" entre produtores, empresas e distribuidores.

Welfair® e o papel da Rede de Qualidade do Bem-Estar 

Stilwell é um membro ativo do Rede de Qualidade de Bem-Estar (WQN), e sua participação decorre de seu trabalho na AWIN e como especialista em grupos da EFSA: “O papel do WQN é essencial: ele promove a harmonização de padrões, apoia a implementação de certificações em toda a Europa e gera material de treinamento para garantir um processo transparente e padronizado”, explica.

Os desafios atuais incluem manter a credibilidade do sistema, fortalecer ou até mesmo aumentar os padrões e desenvolver novos protocolos para sistemas parcialmente cobertos (como vacas leiteiras, bezerros leiteiros ou produção extensiva): "O risco mais sério para qualquer certificação é perder credibilidade. Precisamos manter ou aumentar o padrão para preservar todo o trabalho anterior, pois reduzi-lo anularia todos os esforços para criar um processo transparente", enfatiza Stiwell.

Avaliação interna: uma ferramenta eficaz?

Stilwell liderou um estudo recente sobre autoavaliações simplificadas em explorações leiteiras, no âmbito do Welfair®O objetivo: determinar se essas ferramentas realmente ajudam a preparar os produtores para auditorias externas.

Os resultados são claros: Sim, elas funcionam, mas somente se houver comprometimento real. A autoavaliação facilita a participação e ajuda a identificar pontos fracos. Por exemplo, o estudo identificou fazendas que realizavam a descorna (remoção ou prevenção do crescimento dos chifres em animais) sem anestesia. Após a auditoria, algumas começaram o treinamento e melhoraram sua pontuação final. Aquelas que não implementaram as mudanças não melhoraram: "A autoavaliação é fantástica, mas só é útil se o produtor acreditar nela", diz Stilwell.

Educação continuada: a chave para o bem-estar

Da mesma forma, a educação de criadores e veterinários é essencial. "Se eles não entenderem as necessidades dos animais, se não souberem identificar comportamentos ou sinais de estresse, não conseguirão melhorar o bem-estar deles", afirma. Um exemplo claro, explica, é que evidências científicas mostram que bezerros melhoram seu desenvolvimento cognitivo se forem agrupados desde cedo. "Os criadores precisam entender que isso não é um capricho, mas uma necessidade real."

Quanto aos futuros veterinários, muitos têm ideias negativas sobre a produção animal. "Meu objetivo como professor é mostrar a eles que podem fazer parte da mudança. Eles não devem se afastar das fazendas, mas sim se envolver mais para alcançar melhores práticas." Por isso, ele insiste que visitem fazendas certificadas e aprendam sobre bem-estar desde cedo. "Os veterinários têm uma enorme influência sobre os produtores. Se confiarem nas avaliações de bem-estar e trabalharem para aprimorá-las, a certificação será muito mais eficaz", conclui.

Olhando para o futuro do bem-estar animal na Europa

Stilwell é otimista, mas também realista: “A pressão para melhorar a legislação e os sistemas alimentares sustentáveis ​​está crescendo, mas poucos consumidores estão dispostos a pagar mais. Portanto, aqueles que implementam boas práticas devem receber apoio financeiro.” Nesse contexto, ele destaca o papel da certificação não apenas como uma ferramenta de transparência e melhoria, mas também como um mecanismo valioso para identificar e recompensar fazendas verdadeiramente comprometidas com o bem-estar animal: “A certificação também é uma excelente maneira de selecionar as fazendas que merecem ser recompensadas com apoio financeiro do governo”, acrescenta.

Além disso, ele argumenta que a ciência será decisiva: entender o que os animais precisam, como traduzir sua experiência em indicadores objetivos e quais sistemas são verdadeiramente sustentáveis.

Por fim, para Stilwell, o objetivo central nunca deve ser perdido de vista: o verdadeiro bem-estar dos animais"Não se trata de vender mais, nem de fazer marketing, nem de acalmar consciências. Trata-se de garantir que os animais tenham uma vida que valha a pena ser vivida", conclui.

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