Entrevista com Antoni Dalmau

13/11/2024

"Mais do que a ausência de abuso, o bem-estar animal significa ter uma vida que valha a pena ser vivida."

A certificação Welfair® estabeleceu um novo padrão em bem-estar animal, baseado em princípios de respeito, ciência e, acima de tudo, observação direta do animal. Essa abordagem faz uma diferença fundamental: em vez de avaliar condições externas, observa o animal em seu ambiente, medindo suas respostas e seu bem-estar emocional e físico. Com esta entrevista, queremos ajudá-lo a entender o que realmente é bem-estar animal e como a abordagem de Welfair®, focado na experiência do próprio animal, está transformando o setor agroalimentar. Nele, Antoni Dalmau, pesquisador do Programa de Bem-Estar Animal do IRTA, especialista no desenvolvimento de protocolos de avaliação de bem-estar animal, coordenador da Rede de Qualidade do Bem-Estar e membro do Comitê Científico da Welfair® compartilha sua visão de como essa metodologia não apenas transforma o tratamento de animais, mas também fornece um padrão ético e científico para cuidadores no setor agroalimentar. Para ele, bem-estar não deve significar apenas a ausência de abusos, mas também a presença de condições que permitam aos animais viver uma vida que valha a pena ser vivida.

Uma jornada de vocação e ciência

Desde muito jovem, Antoni Dalmau demonstrou um forte interesse pelo comportamento e pela vida animal, o que o levou a estudar medicina veterinária. "Embora estivesse perto de escolher biologia, acabei optando pela medicina veterinária", diz ele. Quando concluiu a graduação e teve a oportunidade de cursar doutorado, optou por realizar pesquisas sobre a vida selvagem, com foco no comportamento, na seleção de habitat, no comportamento social e no comportamento alimentar da camurça dos Pireneus.

No entanto, sua mudança para o estudo de animais de fazenda lhe renovou o propósito: melhorar as condições de bem-estar de espécies como suínos, bovinos, aves e coelhos. Ela ingressou no Instituto de Pesquisa e Tecnologia Agroalimentar (IRTA), onde trabalha há vinte anos. "Para mim, bem-estar animal significa um estado de boa saúde física e mental. Envolve a compreensão de cada estágio da vida de um animal, do nascimento à morte. "Meu objetivo sempre foi buscar todas as estratégias possíveis para garantir que os animais possam viver uma vida digna, minimizando o sofrimento e garantindo uma alta qualidade de vida", reflete Antoni.

Bem-estar animal: foco no animal em si, não no seu ambiente

“O bem-estar animal não se trata de analisar o estado do ambiente do animal, mas sim como o animal interage com esse ambiente. E é importante que entendamos essa abordagem, por que ela é justa, para eles e para nós. O bem-estar é algo que pertence ao animal, é deles, e deve ser medido no animal”, ressalta Dalmau ao explicar a Abordagem Baseada em Animais. Este conceito se concentra em mensurar o bem-estar do próprio animal com base em indicadores que refletem sua experiência de vida. Por exemplo, se o animal apresenta ferimentos, se manca ou mostra sinais de medo, esses são sinais diretos de que algo não está certo. E podemos concluir que não sabemos por que o animal está com medo; talvez não encontremos nada no ambiente que o explique, mas a realidade é que é isso que o animal está sentindo e transmitindo, e o bem-estar animal tem a ver com isso, com a experiência de vida daquele animal. Pelo contrário, quando olhamos para o ambiente, sejam as instalações ou o manejo do próprio agricultor, o que estamos avaliando são fatores de risco, que são interessantes para um guia de boas práticas, mas não dizem absolutamente nada sobre o estado do bem-estar animal. Por exemplo, há um buraco no chão, e ele não deveria estar lá para evitar que os animais se machuquem, mas o fato de você ter um documento que diz que não há buraco no chão em sua fazenda não diz nada sobre o bem-estar dos animais naquela fazenda. Além disso, mesmo que haja um buraco, você ainda não saberá nada sobre o estado desses animais; apenas que eles vivem em um cercado onde podem ficar "Se machucar por causa disso. de um buraco no chão. A diferença de abordagem é importante e, embora seja bom usar ambas as abordagens — ou seja, verificar se há buracos no chão e animais com ferimentos nos membros — a primeira é uma avaliação de risco, e apenas a segunda é uma avaliação de bem-estar animal", explica o cientista.

A Abordagem Baseada em Animais foi desenvolvida ao longo dos anos em vários fóruns científicos, incluindo o projeto European Welfare Quality, financiado pela União Europeia, em resposta à necessidade de definir padrões de bem-estar animal que pudessem ser utilizados em toda a UE. "Assim como as regulamentações de bem-estar animal ainda se baseiam frequentemente no controle de fatores de risco, no projeto Welfare Quality ficou claro desde o início que, se quiséssemos uma ferramenta para medir o bem-estar animal e não apenas os fatores de risco, tínhamos de nos concentrar em medidas derivadas dos próprios animais", explica Dalmau. O projeto Welfare Quality descobriu que era crucial estabelecer um protocolo baseado na observação direta e sistemática do animal, medindo a sua resposta e comportamento.

“O comportamento é um aspecto essencial na avaliação do bem-estar”, enfatiza Dalmau. “Para nós, avaliar o bem-estar envolve permitir que o animal expresse seus comportamentos naturais, ou seja, aqueles que lhe são exclusivos como espécie, e especialmente aqueles que se tornaram necessidades comportamentais.” Assim, a abordagem baseada em animais Ela mede a interação entre o ambiente e o animal, avaliando as consequências dessa interação para o próprio indivíduo. "Essa abordagem nos permite entender o animal a partir de sua própria perspectiva, colocando seu bem-estar no centro da avaliação.", conclui o cientista.

Os cinco domínios do bem-estar animal: uma nova definição de qualidade de vida

A mudança das “cinco liberdades” para os “cinco domínios” representa uma evolução significativa na forma como entendemos o bem-estar animal. Essas cinco liberdades, desenvolvidas no Reino Unido nas décadas de 70 e 80 e inspiradas no livro Animal Machines, de Ruth Harrison (escrito na década de 60), estabeleceram que o bem-estar animal se baseava em cinco princípios fundamentais: que os animais deveriam estar livres de fome, sede, desconforto físico e térmico, lesões, doenças, medo e dor, e que deveriam ser capazes de expressar comportamentos naturais. “Na época, essas liberdades serviam como uma grande definição universal de bem-estar animal”, explica Dalmau, “mas focavam principalmente em evitar abusos, em vez de promover um estado positivo no animal. De fato, se olharmos para algo tão simples como as emoções, ele se concentra em duas delas, indicando que o animal não deve sentir medo ou dor, mas não discute quaisquer outros estados emocionais.”

A partir dos anos 2000, essa abordagem mudou. Por um lado, o projeto Welfare Quality substituiu o conceito de ausência de medo (herdado das cinco liberdades) por um estado emocional positivo (tentando explicar que as emoções vão muito além da ausência de medo e dor). Por outro lado, no Reino Unido, o mesmo conselho que havia criado as cinco liberdades declarou-as obsoletas em 2009 e estabeleceu um novo conceito, o de Vida que vale a pena viver”, comenta Antoni, referindo-se à ideia de que o bem-estar animal deve proporcionar ao animal uma vida que valha a pena ser vivida, não apenas uma vida sem sofrimento. Anos depois, em 2016, foram publicados os cinco domínios, que são uma evolução natural dos 4 princípios da Qualidade do Bem-Estar, nos quais estes se tornam os 4 primeiros domínios do bem-estar animal e um quinto é criado, chamado estado mental, assumindo que é o mais importante e onde o bem-estar é, em última análise, definido como tal. Em outras palavras, o bem-estar animal depende de uma boa nutrição (primeiro domínio), um bom ambiente (segundo domínio), boa saúde (terceiro domínio), comportamento apropriado (quarto domínio), e tudo isso levará o animal a ter um bom estado emocional e mental (quinto domínio).

Atualmente, projetos como a Parceria Europeia para a Saúde e Bem-Estar Animal e o Action Cost Lift estão desenvolvendo novos indicadores para mensurar esses estados emocionais, sob os chamados indicadores positivos de bem-estar. Esses indicadores buscam observar não apenas quando um animal está doente, mas também quando ele está em um estado positivo de bem-estar. "Deixamos de ver o bem-estar animal apenas como a ausência de abuso para entendê-lo como uma vida que vale a pena ser vivida, que também inclui experiências positivas", conclui Dalmau, enfatizando que essa mudança em direção a cinco domínios oferece uma visão muito mais abrangente e enriquecedora do bem-estar animal.

O nascimento de Welfair® 

O nascimento de Welfair® tem suas raízes no projeto Welfare Quality, que estabeleceu padrões para bovinos, suínos e aves, e dispôs de um orçamento significativo para desenvolver esses protocolos. Esse esforço buscou, entre outras coisas, atender à crescente demanda dos consumidores europeus por produtos que respeitassem o bem-estar animal. Posteriormente, por meio do projeto AWIN e com a participação de cientistas do NEIKER, o desenvolvimento de protocolos utilizando a mesma metodologia para novas espécies continuou.

Além disso, Welfair® baseia-se em rigorosos critérios científicos que garantem a validade de seus protocolos. Visa não apenas o bem-estar das espécies mais conhecidas, como bovinos e aves, mas também cuida das menos comuns.

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